A floresta dos suicidas

Dante Alighieri

Antes que o centauro Nesso tivesse terminado de atravessar o vau do rio de sangue, já estávamos nós em um bosque, não verde, mas de folhagens foscas, sem frutos, sem ramos e com os troncos cobertos de espinhos. Era ali que faziam seus ninhos as Hárpias - seres de grandes asas e rostos humanos, garras nos pés e ventres emplumados que lançam das alturas lamentos misteriosos.
- Antes que entres - disse me Virgílio -, saibas que estamos no segundo giro deste sétimo círculo. Fica atento pois aqui verás coisas incríveis que soariam falsas se eu te contasse. Caminhávamos pelo bosque deserto e eu ouvia vozes de lamento, sem avistar ninguém que pudesse ser a fonte de tais lamúrias. Creio que Virgílio tenha pensado que eu estava achando que as vozes emanavam de pessoas escondidas atrás das árvores, por isso falou:
- Se arrancares um galhinho de uma dessas plantas, mudarás o que agora imaginas. Eu, seguindo seu conselho, levei a mão à primeira que encontrei, e dela arranquei um pequeno ramo.
- Ai! Por que me maltratas? - gritou o tronco, chorando. E depois de se cobrir totalmente de sangue, disse ainda, triste - Por que me atormentas? Não tens espírito de piedade? Homens um dia fomos e hoje só restam paus. Devias ter mais cortesia mesmo que fôssemos almas de serpentes. A voz saía da ferida, como uma mistura de sangue e palavras, cuspindo e assobiando. Assustado, imediatamente soltei o galho que eu segurava e permaneci imóvel e assustado, como quem teme.
- Ó alma ferida - falou Virgílio, dirigindo-se à planta - fui eu que o incitei a fazer o que agora me entristece. Se ele soubesse que sofrerias, ele jamais teria erguido a mão contra ti. Mas dize a ele quem foste, pois ele deixará estas trevas e voltará ao mundo onde poderá resgatar a tua fama.
- Tão amiga soa tua fala que devo responder. Fui ministro de Frederico II e vítima de grande injustiça, calúnias e inverdades. Por causa delas, tirei minha própria vida. Sempre fui atento ao meu senhor e nunca o traí. Se algum de vós regressar ao mundo, que faça o favor de restaurar a minha memória, que foi maculada pela inveja. Virgílio esperou um pouco, depois me falou: - Já calou-se o suficiente. Não percas tua vez. Pergunta, se há mais alguma coisa que desejas saber.
- Por que tu não perguntas o que achares que a mim poderá satisfazer? - perguntei - Eu não posso. Não conseguiria falar. Ele então, voltou Virgílio para o espírito:
- Ó espírito em desgraça, dize-nos como uma alma se funde com estas plantas e se algum de vós, um dia, escapará desses galhos. Ao ouvir, a árvore respirou fundo e depois seu sopro se transformou em uma voz que respondeu:
- Quando alguma alma se separa do seu corpo por sua própria vontade, Minós, o juiz do submundo, a manda para o sétimo círculo do Inferno. De lá, cai nesta selva escura, brota como uma semente e cresce, até tornar-se um arbusto espinhoso. As Hárpias alimentam-se de nossos galhos e ao arrancá-los causam-nos intensa e eterna dor. Como os outros condenados, um dia retornaremos à superfície para reaver nossos corpos, mas nunca mais poderemos vesti-los, pois, seria injusto que tivéssemos algo que rejeitamos. Nós os arrastaremos até aqui onde, nesta triste floresta, nossos corpos ficarão pela eternidade pendurados nos galhos das suas almas vis.

(A Divina Comédia: Inferno, Canto XIII - adaptação de Helder da Rocha)


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